segunda-feira, 12 de julho de 2010

Violência Contra A Mulher - A Princesa E O Lobo Mau

Cinderela encontrou seu príncipe encantado, mas, na vida real, muitas princesas acabam se envolvendo com o Lobo Mau. “Vou soprar, vou bufar e sua casa derrubar”.

Sabemos que ele matou a avó da Chapeuzinho Vermelho e dois dos três porquinhos. É provável que existam outras vítimas. A própria Chapeuzinho Vermelho escapou por um triz.

A mulher que se envolve com este tipo de homem não tem nada a ganhar. Se conseguir sair da relação, terá que cuidar das feridas físicas e emocionais causadas pelo agressor. Se ficar, será eternamente infeliz, podendo ainda ser assassinada.

Geralmente, o “lobo” se apresenta em pele de cordeiro. É amigável, simpático e usa seu charme para seduzir as vítimas.

Com o tempo vai se revelando. No fundo, é um cara instável, insensível e que demonstra absoluta desconsideração pelos sentimentos dos outros.

Não sabe lidar com aborrecimentos, seus desejos e vontades são lei e precisam ser gratificados imediatamente. Fica furioso e destrutivo, quando não consegue o que quer.

Costuma não demonstrar remorso pelo crime cometido. É pouco provável que assuma a responsabilidade por seus atos. Segundo ele, a culpa é da bebida ingerida, da droga usada, do ciúme, da negligência da esposa que não passou bem sua camisa de trabalho ou que deixou a comida queimar no fogão.

Não admite para si mesmo nem para os outros que é um doente com grave distúrbio psicológico. Ao invés disso, pede perdão, jura que vai mudar seu comportamento e que aquilo não vai acontecer nunca mais. Fica carinhoso, mais paciente e até compra presentes para a “amada”, fingindo que nada de sério aconteceu. Porém, a fantasia de bom moço dura pouco. O que, normalmente, acontece é ele se tornar cada vez mais violento e os períodos de calmaria durarem menos.

Dados da Fundação Perseu Abramo revelam que, a cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Inúmeros crimes brutais acontecem constantemente. A violência doméstica é uma questão nacional. Pesquisa do Instituto Sangari revela que, em dez anos (1997 a 2007), dez mulheres foram mortas por dia no Brasil. Os assassinos, quase sempre, são os atuais ou ex-maridos, namorados ou companheiros.

Uma grande parte das mulheres se cala e não registra queixa com medo de apanhar mais ainda e de que o companheiro se vingue agredindo os filhos ou outros parentes próximos. Outras, por incrível que pareça, não querem prejudicar o agressor, pois sabem que seu destino pode ser a prisão. Há aquelas que dependem emocional e financeiramente do companheiro e que fazem valer a famosa expressão “ruim com ele e pior sem ele”. Por fim, algumas mulheres acreditam que a agressão não se repetirá e que talvez tenham sido culpadas pelo comportamento exaltado do companheiro.

É comum as vítimas da violência doméstica tentarem esconder o problema que estão vivenciando dos amigos e parentes por medo e vergonha. O aparecimento de machucados e hematomas é explicado como sendo fruto de uma queda ou batida.

Outros sinais ajudam a evidenciar a violência, tais como: baixa auto-estima, depressão, afastamento da vida social, introspecção, isolamento, aumento das faltas no trabalho, silêncio sobre a vida do casal.

E não é só a violência física contra a mulher que é intolerável. Também é inadmissível o abuso sexual ou emocional.

Querida leitora, se você está passando por isso, procure apoio psicológico. Eu sei como é difícil sair de um relacionamento desta natureza, mas acredite em mim: NÃO É IMPOSSÍVEL.

Admitir que a relação não faz bem para você e querer sair dela é o primeiro passo.

Grupos de ajudam funcionam muito bem e trazem resultados satisfatórios. Você já deve ter ouvido falar, por exemplo, na entidade MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas). Lá é possível aprender e se fortalecer ao tomar conhecimento da vida de outras mulheres com histórias de amor parecidas com a sua. A freqüentadora do grupo não precisa falar nada durante as reuniões, se não quiser.

Também é importante buscar orientação jurídica e policial. A lei Maria da Penha foi criada para proteger a mulher, mas ainda falha nas medidas protetivas. Mesmo assim, o melhor caminho é denunciar.

Você, mulher violentada, precisa de carinho e de cuidados e não de um torturador. Como dizem por aí: “É preferível um fim pavoroso a um pavor sem fim”. Tenha coragem para seguir adiante e também para olhar dentro de si mesma e avaliar o que a fez entrar e permanecer num relacionamento tão violento, a fim de que suas futuras escolhas amorosas sejam saudáveis e prazerosas.

Acho interessante analisar que por trás da violência mencionada neste artigo, existe uma sociedade que, muitas vezes, desmereceu as mulheres e divulgou a idéia de que o homem era superior e que, por isso, tinha o direito de impor suas vontades, inclusive as sexuais, usando, se preciso, até a força física para demonstrar a sua virilidade, força e poder.

Faz cinco mil anos que é perigoso ser mulher. Na história da humanidade, muitas mulheres foram queimadas na fogueira, apedrejadas, estupradas, espancadas, mutiladas sexualmente, tratadas como propriedade do homem e impedidas de sentir desejo. Até outro dia, não podiam estudar, votar nem trabalhar fora de casa.

Entre os diversos fatores envolvidos neste processo, um deles, sem dúvida alguma, é o medo inconsciente do feminino, que faz parte da psique humana.

A mulher é um imenso mistério. Ela é capaz de gerar outra vida dentro dela. Isso nos encanta e, ao mesmo tempo, apavora. Quem é esta que sangra todo mês, que é capaz de amar incondicionalmente, que traz a intuição dentro da alma, que é tão forte e frágil ao mesmo tempo e ainda assim é capaz de enfeitiçar os homens?

Fiquem tranquilos, rapazes, porque este medo não tem nada a ver com homossexualidade. Mas saibam que gostar de fazer sexo com mulher é uma coisa e gostar realmente de mulher é outra totalmente diferente e mais complexa. Tocar o corpo da mulher e chegar até a sua caverna escura não significa, de modo algum, tocar sua alma e entrar em contato com o feminino misterioso e profundo.

Se, por um lado, Freud falava da castração e da inveja do pênis, por sua vez, Lacan ressaltava o ciúme do orgasmo feminino, que é mais complexo e duradouro. Assim sendo, vejo o relacionamento amoroso e sexual como o encontro de duas pessoas assustadas pelas diferenças e estranhezas, tentando se proteger do outro e de si mesmas, mas, no fundo, querendo ser aceitas e admiradas.

Com carinho, respeito e diálogo, acredito ser possível perceber que a graça do conviver com outra pessoa está justamente nisso. Poder penetrar outro mundo, fazer novas descobertas, sentir medo e excitação, compartilhar, somar e ver a vida com outros olhos. A mistura do tempero masculino com o feminino é o grande sabor da vida.

Espero que você encontre um bom parceiro para desfrutar a vida ao seu lado. E lembre-se de que é preferível ficar sozinha a se envolver com o lobo mau. Viver só não tem nada a ver com ser infeliz.



sábado, 10 de julho de 2010

O Futebol No Divã: O Caso do Goleiro Bruno


A maioria das matérias apresentadas na televisão e dos artigos publicados na mídia sobre o caso do goleiro Bruno são muito parecidos.

Quase todos procuram dar destaque aos aspectos sórdidos do crime em questão. Parece-me que a intenção da imprensa não é apenas levar informação à população, como também usar a imensa repercussão do acontecimento para alavancar audiência.

Em comum também há um clima de comoção e condenação geral que parece sentir prazer ao gritar “pega e lincha”.

Quero deixar bem claro que não estou defendendo o Bruno nem os demais envolvidos. Para quem não me conhece, antes de fazer parte do mundo psicanalítico, pertenci ao universo jurídico. Sou formada em Direito (PUC/SP) e, como toda a sociedade, eu também desejo que os responsáveis sejam punidos. Mas acho que a postura adotada, até agora, pelos meios de comunicação e a exposição exacerbada do caso não têm eficácia alguma para ajudar a resolver a questão principal que se coloca diante de nossos olhos. Criticar e punir não basta. De que adianta secar um ambiente onde existe uma torneira que não fecha?

Inúmeros crimes brutais acontecem constantemente. A violência doméstica é uma questão nacional. Pesquisa do Instituto Sangari revela que, em dez anos (1997 a 2007), dez mulheres foram mortas por dia no Brasil. Os assassinos, quase sempre, são os atuais ou ex-maridos, namorados ou companheiros. Por quantas mulheres ainda vamos derrubar nosso pranto? Quem ainda não se lembra do Caso Eloá? Até ontem, estávamos chorando a morte de Mércia Nakashima. Agora, nossas lágrimas são por Eliza Samudio. A diferença é que, no último caso, há um famoso envolvido.

Além de Bruno, recentemente, outros jogadores de futebol foram investigados pela polícia. Vagner Love e Adriano tiveram seus nomes associados ao tráfico de drogas.

O fato é que estes atletas começam muito cedo na carreira, por volta dos 12, 13 anos. Geralmente abandonam os estudos e são provenientes de famílias pobres e desestruturadas. O futebol é o meio mais rápido e, talvez o único, que lhes possibilita reconhecimento social.

O jogador não é preparado para lidar com derrotas, lesões, pressões da torcida, cobranças da comissão técnica, transferências para outros países que implicam em distância da família e adaptação aos costumes estrangeiros, bem como ao clima e ao novo idioma. Não está nem pronto para a fama que traz consigo “amigos da onça”, empresários gananciosos e as “Marias- chuteira” da vida. Também é presa fácil das armadilhas da imprensa que, em um momento, estende o tapete vermelho para indivíduos despreparados, transformando-os em heróis e, logo em seguida, puxa-o, levando-os ao chão.

O apoio psicológico deveria ser tão importante como a alimentação balanceada, os treinamentos físicos e táticos e os cuidados médicos e de fisioterapia. Nelson Rodrigues, em sua crônica “Freud no Futebol”, diz que “de fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: - já é tempo de atribuir ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável”.

Vou mais longe ao dizer que não é apenas, no futebol, que este lamentável esquecimento acontece. Há algo de errado no mundo, porque existe algo de errado em nós. A sociedade apenas é o reflexo de nossos melhores sonhos e piores pesadelos. Estamos deixando de investir nos seres humanos e em suas emoções e complexidade. Se não mudarmos, cada vez mais o mundo transformar-se-á em um lugar insuportável de se viver. Vou repetir o que escrevi recentemente em um artigo: A transformação começa dentro de casa. Vamos criar seres humanos mais carinhosos e solidários, que saibam distinguir o certo do errado, que suportem frustrações, que aceitem regras e limites, que respeitem as diferenças, que não confundam posicionamento com agressividade, que dêem mais valor às pessoas do que ao dinheiro e ao “status”. Só assim teremos alguma chance de uma vida melhor.



quarta-feira, 7 de julho de 2010

A Profecia Futebolística Do Polvo Vidente E A Superstição Na Copa


Em todas as Copas do Mundo, algumas personagens destacam-se e trazem um colorido a mais para o evento esportivo. Nesta de 2010, entre várias, duas chamaram minha atenção em especial por estarem relacionadas a superstições e adivinhações: Maradona e Paul, o polvo vidente.

O técnico da Argentina, dono de uma personalidade complexa e excêntrica, com seu passado marcado por glórias e escândalos, parece ter saído da disputa com o saldo positivo. Carismático, protetor e carinhoso com seus jogadores, espirituoso com a imprensa e respeitoso, dentro do possível, em relação aos adversários. Mas não reparei apenas nestes aspectos comportamentais, como também em suas manias.

“El Diez” (O Dez) usou o mesmo terno e a mesma gravata em todos os jogos. Durante as partidas, segurou um terço entre os dedos. Não entrava nem saía do campo sem se benzer. Apesar de quase não sentar-se durante o jogo, o banco escolhido sempre foi o terceiro da direita para a esquerda. Maradona procurou dar suas entrevistas antes dos jogos na mesma sala de imprensa em Pretória. Poderia citar ainda outras, como dormir com a camiseta da seleção, mas acho que estas já estão de bom tamanho.

Por sua vez, Paul, o polvo vidente, roubou a cena na África do Sul, porque previu, até agora, o vencedor dos jogos disputados pela Alemanha. Acertou a vitória sobre a Austrália, Gana, Inglaterra e Argentina, bem como a derrota do time alemão para a Sérvia e Espanha. A profecia é feita da seguinte maneira: em duas caixas, cada uma delas decorada com a bandeira de um dos dois times adversários, coloca-se comida para o octópode. A escolhida por Paul aponta o vencedor.

Será mesmo possível prever o futuro e vislumbrar o que ele reserva aos homens e ao universo? O trevo de quatro folhas dá sorte? Passar embaixo da escada é perigoso?

Francis Bacon disse que “evitar as superstições é uma outra superstição”. Porém, de acordo com Voltaire, “a superstição põe o mundo em chamas, a filosofia apaga-as”.

O fato é que, desde sempre, as crendices e a visão mágica do mundo estiveram presentes na história da humanidade. Nossa compreensão é afetada por desejos e emoções. É comum acreditarmos naquilo que gostaríamos que fosse verdade.

Viver é tarefa das mais complexas. Somos seres mortais, falhos, desamparados, vulneráveis e impotentes em relação às forças da natureza. Os relacionamentos com nossos semelhantes nos fazem sofrer e ainda precisamos tolerar as frustrações e privações que a sociedade nos impõe.

As crendices ganham força porque é da natureza humana evitar o desprazer, buscar proteção, negar a ameaça do mundo externo, acreditar que o destino representa sempre a expressão da vontade divina. Quando algum infortúnio nos acontece, para amenizar o sofrimento nos consolamos acreditando que não era para ser.

Não duvido, como disse Shakespeare, de que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, mas acho prudente tomar cuidado com os charlatães que estão por aí, aproveitando-se da boa fé das pessoas. Não temos controle absoluto sobre tudo o que nos acontece, mas somos nós mesmos que escrevemos o nosso futuro na maior parte do tempo e ele é determinado pelas escolhas e atitudes adotadas no momento presente. Por isso, faça o melhor que puder hoje. O passado já ficou para trás e o futuro ainda não chegou. Prepare-se e dedique-se. É você quem escreve a sua história. No fim das contas, a vida é parecida com uma partida de futebol. Se você jogar bem, terá maior chance de ganhar. Se jogar mal, é bem provável que perca. O equilíbrio entre os adversários tende a levar ao empate. Se a disputa for para os pênaltis, ganhará o time que tiver o melhor desempenho nas cobranças. Jogar com alegria no coração sempre ajuda.

Espero que sua vida valha à pena e que você faça muitos gols.



sábado, 3 de julho de 2010

Brasil Fora da Copa do Mundo: O Emocional Também Entra Em Campo


Este artigo não tem a intenção de criticar ninguém nem procurar culpados para crucificar. Pelo contrário, respeito e admiro o Dunga assim como todos os jogadores da seleção brasileira. Apenas pretendo chamar a atenção para um fato óbvio que, em minha opinião, tem sido negligenciado. Sou psicanalista e, dentro do consultório como fora dele, nunca vi tanta gente desequilibrada emocionalmente. Elas estão em toda parte: nos hospitais, nas empresas, nas repartições públicas, nas escolas e faculdades, nos condomínios, inclusive nos campos de futebol.

Sim, o time brasileiro não perdeu para a Holanda, mas para si mesmo. Enquanto estavam ganhando, os jogadores pareciam felizes e motivados. Quando a situação complicou, o nervosismo e o descontrole ficaram evidentes. Não basta saber que se é o melhor time do mundo, é preciso sentir que se é e agir como tal.

Em uma disputa, quando perdemos, quase sempre somos derrotados por nossos próprios medos, por nossas inseguranças e fragilidades e pela incapacidade emocional de lidar com a situação adversa.

Nossa sociedade treina e incentiva os indivíduos a alcançarem vitórias e conviverem com emoções agradáveis e positivas. A mídia procura fabricar “campeões” para ganhar dinheiro às suas custas e tentar esconder um elefante embaixo do tapete da sala, vendendo um conto de fadas, mas a verdade é que não existem heróis imaculados. Todos nós somos falhos. Negar nossos defeitos é negar aquilo que faz de nós humanos. Como diria Clarice Lispector: “Até cortar os defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” O verdadeiro herói é aquele que encontra sua força em sua maior fraqueza. É aquele que enfrenta dores e obstáculos e os supera. Sabe que não é perfeito e não se preocupa em sê-lo.

Parece que se esqueceram de nos ensinar a lidar com frustrações e dificuldades. Hoje, jovens ricos e entediados, sem limites e incapazes de encarar a realidade de fato como ela é, queimam um índio deitado na praça para se divertir. Adultos infelizes com seus trabalhos descontam sua raiva em brigas de trânsito. Casais separam-se, quando aparece o primeiro problema conjugal mais sério.

Não é à toa que o consumo do Prozac e de medicamentos afins têm crescido assustadoramente. Em um mundo, que demanda respostas fáceis e rápidas, procuramos nos livrar logo da dor que incomoda. Só que viver machuca mesmo e gera ansiedade. Não dá para viver a vida, evitando-a. Quem quer ser mais feliz e equilibrado, precisa aprender a tolerar e a conviver com uma gama mais ampla de experiências emocionais.

Sua vida muda, quando você se transforma. Quem não lida com suas dores e não reconhece os seus erros, não amadurece nem aprende. O Felipe Melo, em uma entrevista após o jogo, disse que só pisou no jogador holandês, mas que não teve a intenção de machucar. O que ele quis dizer com isto? Que ele podia pisar então, só não podia machucar? Parece o político que só colocou um pouquinho de dinheiro na cueca.

Creio também que os ídolos mudaram. Antigamente, a fama era o resultado da competência com a dedicação. As celebridades atuais vivem mais de aparência do que de talento e preparação. Por isso, os realities shows fazem tanto sucesso. Não consigo entender o porquê destas estrelas sem brilho próprio serem tão endeusadas e, ainda por cima, ganharem tanto dinheiro. Qual o bem gigantesco que elas fizeram em prol da humanidade? Viva o glamour e os egos inflados! E como ficam os milhões de brasileiros anônimos que acordam cedo para trabalhar todos os dias, que dão um duro danado para ganhar o pão de cada dia e que recebem um salário que mal dá para sustentar a família? Nós sabemos que os jogadores de futebol famosos ganham uma fortuna.

Hoje, tanto se fala em ecologia e em um planeta melhor no futuro. Este lugar só existirá, se as pessoas mudarem. A transformação começa dentro de casa. Vamos criar seres humanos mais carinhosos e solidários, que saibam distinguir o certo do errado, que suportem frustrações, que aceitem regras e limites, que respeitem as diferenças, que não confundam posicionamento com agressividade, que dêem mais valor às pessoas do que ao dinheiro e ao “status”.

Espero que, em 2014, nossa seleção querida seja campeã e que, se não o for, pelo menos seja representante de uma população mais amadurecida, honesta e equilibrada, mantendo sua alegria e sua ginga brasileira inconfundíveis. Que venha o hexa!



quinta-feira, 17 de junho de 2010

A RIVALIDADE FEMININA


Atire a primeira pedra qual de nós nunca sentiu raiva e inveja daquela amiga magra e linda que devora, sem dó nem piedade, toda e qualquer comida que vê pela frente sem engordar uma grama sequer. E o que dizer daquela outra que tem o bumbum durinho e empinado, sem estrias nem celulite, capaz de deixar com torcicolo todos os “marmanjos” da praia? Desgraçadas!

A inveja é um dos sete pecados capitais. Este sentimento dificilmente é confessado, porque causa vergonha àquele que por ele é tomado. O fato é que faz parte da natureza humana, pois em cada um de nós há um invejoso. O que difere é a intensidade e a freqüência com que a inveja aparece, além do uso que se faz dela. Podemos usá-la para prejudicar ou destruir o objeto que nos provoca mal–estar, por outro lado, podemos reconhecer e aceitar nossas limitações, usando a admiração pelos atributos alheios como inspiração para desenvolver melhor os nossos talentos.

Será então que não existe amizade verdadeira entre as mulheres porque a competição entre elas fala mais alto? Será que a rivalidade feminina é maior do que a masculina? Ou será que apenas se apresenta de outra maneira? Como as mulheres se relacionam entre si? O que uma recebe da outra? Qual é o papel que a mulher desempenha na vida emocional de sua amiga?

É importante lembrar que o primeiro relacionamento da mulher com outra pessoa do mesmo sexo foi com a mãe. Ligação esta bastante delicada e forte, capaz de influenciar sobremaneira os futuros relacionamentos adultos. Sendo assim, nada incomum transferirmos para as amigas sentimentos confusos que, no fundo, têm a ver com a dinâmica de nossos relacionamentos com nossas mães.

Além do mais, faz-se necessário mencionar que a mulher não recebeu o falo (pênis), representante universal da importância, portanto, uma ausência está registrada no seu emocional. Esta falta (incompletude) provoca insegurança. Aquela, que aparecer com um “que” a mais, fará a mulher se sentir ameaçada e inferiorizada.

Por estarem unidas na privação, muitas mulheres são excelentes amigas quando a outra está vivenciando momentos difíceis, mas têm dificuldade de se sentirem felizes e unidas nos momentos de realização e sucesso da amiga. Quanto mais as mulheres se sentirem bem consigo mesmas e alcançarem um lugar de realização e reconhecimento no mundo, menos inveja terão de suas companheiras.

Mas calma, meninas! Nem tudo está perdido. Eu ponho muita fé no universo feminino ainda que reconheça, em muitas ocasiões, a existência de “alfinetadas” e de comentários ferozes e ásperos trocados entre as mulheres.

Repare que, desde pequenas, temos uma relação carinhosa com nossas amiguinhas e fazemos tudo juntas, chegando inclusive a excluir os meninos por achá-los um pouco “bobocas”. Na adolescência e no começo da vida adulta, podemos até nos afastar umas das outras, mas depois voltamos a ter amigas e confidentes mulheres e um novo querer bem se instala com toda força e carinho.

Desde sempre, mulheres conversam com as amigas sobre os filhos, maridos, chefes, problemas financeiros e amorosos. A união entre elas é prazerosa e ajuda a preencher lacunas dentro de si mesmas e necessidades que os homens não são capazes de entender nem atender. Só uma mulher consegue compreender porque a outra comprou a milésima bolsa preta achando que é necessária e super diferente das anteriores. Também apenas uma amiga é capaz de apoiar a escolha da outra que trocou o namorado, médico e educado, por um motoboy esquisitão sem eira nem beira.

Por longo tempo, a sociedade machista e preconceituosa contribuiu com a idéia errônea de que as mulheres só ficavam juntas quando seus homens não estavam disponíveis para elas e, ainda por cima, que suas conversas não passavam de tagarelices e fofocas. Acreditava-se que comentavam apenas sobre futilidades como roupas, receitas culinárias, maquiagem e a vida da vizinha, enquanto os homens falavam sobre política e outros assuntos capazes de mudar o mundo.

Talvez a mulher seja mais verborrágica, crítica e tenha uma facilidade maior de expressar seus sentimentos, o que torna seu jeito de amar bem peculiar e pitoresco, porém não menos sincero. Uma pesquisa inglesa na Universidade de Manchester mostrou que as mulheres formam laços de amizade mais profundos e duradouros do que os homens, mais ligados ao momento e preocupados com os benefícios que o relacionamento pode trazer.

Viva o clube da Luluzinha! Que nossa união fortaleça cada vez mais nossa amizade, que possamos crescer juntas, compartilhar conhecimentos e nos ajudarmos mutuamente.

Avante! Que a vitória seja de cada uma e de todas nós.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dia Dos Namorados



Amanhã é celebrado o Dia dos Namorados. Desejo uma comemoração feliz a todos os apaixonados. O texto abaixo, escrito pelo psicanalista Contardo Calligaris, nos brinda com uma inteligente reflexão sobre o amor. Vale a pena ler.

A coragem do amor que dura
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Quando amo, consigo olhar o mundo por duas janelas que não se confundem, a minha e a do ser amado

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"PROLONGANDO MINHAS observações da semana passada sobre "Quincas Berro d'Água", vários leitores e leitoras observaram que a literatura e o cinema, em geral, glorificam a coragem de quem, um belo dia, chuta o balde e vai embora.

E como ficam os que passam a vida inteira deslocando o balde para estancar as goteiras? Será que eles são todos covardes e acomodados?

É inegável: nossa cultura idealiza a ruptura, a aventura, a saída para o mar aberto. Em matéria amorosa, o momento que preferimos contar é a hora do apaixonamento.

Depois disso, gostamos de imaginar que "eles viveram felizes para sempre", mas sem entrar em detalhes que poderiam transformar a história numa farsa.

Uma boa solução, aliás, é que os amantes morram logo. O sumiço (de ambos ou de um dos dois) evita que a comédia da vida que levariam juntos contamine a apoteose do encontro inicial. Os amantes ideais são os que não duraram no tempo: Romeu e Julieta, o jovem Werther e Charlotte, Tristão e Isolda.

Concluir o quê? Que a coragem é sempre a de quem deixa a mornidão de seu conforto para se queimar num instante de paixão? Será que não pode haver coragem nos esforços para que o amor dure?

É óbvio que a duração não é um valor em si: uma relação pode durar a vida inteira e ser uma longa e insulsa experiência repetitiva, sem amor algum. Mas, inversamente, será que as paixões-relâmpago são amores? Enfim, seria útil dispor de uma definição do amor.

Justamente, li nestes dias um livro que me tocou, "Éloge de l'Amour" (elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês.

Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de "heroísmo da fusão" dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes).

Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é "uma construção".

Confesso que fiquei com medo de que o filósofo nos propusesse amores tagarelas, em que os amantes não parariam de discutir a relação (claro, para construí-la). Por sorte, não se trata disso. Então, o que constroem os amantes?

Geralmente, explica Badiou, minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela.

Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses.

Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela.

Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz. Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego.

O amor segundo Badiou, em suma, é uma aventura, mas que precisa ser obstinada: "Abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor. Um amor verdadeiro é o que triunfa duravelmente, às vezes duramente, dos obstáculos que o espaço, o mundo e o tempo lhe propõem".

Você aprecia a definição, mas a acha um pouco abstrata? Gostaria da história de um amor que dura e se obstina sem se tornar pesadelo ou farsa? Pois bem, acabo de ler um texto comovedor, bonito e capaz de ilustrar e explicar perfeitamente as palavras de Badiou.

Em "Amar o Que É: Um Casamento Transformado" (Objetiva), Alix Kates Shulman conta como ela e Scott, o marido, reinventaram o mundo, a dois, obstinadamente, depois de um acidente que precipitou Scott numa forma de demência.
Há momentos difíceis, sacrifícios e durezas, mas, curiosamente, o relato não chega nunca a ser triste porque se trata de uma extraordinária história de amor". (Contardo Calligaris) 

segunda-feira, 31 de maio de 2010

EMOÇÕES E DOENÇAS


Existem muitos estudos científicos comprovando que fatores emocionais graves como, por exemplo, um trauma são capazes de provocar alterações cerebrais.
Mais importante do que discutir quem nasceu primeiro, ovo ou galinha, é reconhecer que as experiências emocionais e as doenças são dois lados da mesma moeda.
O poema abaixo é da autoria de Viviane Mosé, psicanalista e filósofa. É um fragmento do "Poema Preso" extraído do livro Pensamento Chão.

"Muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema
palavra suor é melhor do que palavra cravo
que é melhor do que palavra catarro
que é melhor do que palavra bílis
que é melhor do que palavra ferida
que é melhor do que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema"

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Qual é a diferença existente entre a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria?

Como trabalha um psicólogo, um psicanalista e um psiquiatra? Qual ou quais as diferenças entre eles? A quem devo recorrer? Estas perguntas são muito frequentes. O vídeo abaixo tem a intenção de diminuir as dúvidas sobre estas questões.

sábado, 8 de maio de 2010

Feliz Dia Das Mães!

Amanhã comemoramos o dia das mães. Já deixo aqui a minha homenagem a todos estes anjos sem asas. Mãe é amor. E quem ama, educa e ensina. Quem ensina, sempre aprende também.Achei este vídeo lindo e estou compartilhando com vocês. A narração é da Fernanda Montenegro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PAIS E FILHOS ADOLESCENTES


Não é fácil ser adolescente. Também não é fácil ser adulto. Ser quem se é, independente da idade que se tem, e conviver com os outros é tarefa das mais árduas e complexas. Por isso, não é à toa que o relacionamento dos pais com seus filhos adolescentes é sujeito a chuvas e trovoadas. Mas não se surpreenda se, no final, o arco-íris aparecer.

Família é assim mesmo. Ela é nosso lugar no mundo. Espaço de amor, de aconchego, de proteção, de cuidados, do aprendizado de limites, do respeito e da convivência, mas também de gritos, brigas, queixas, xingamentos, choros, acusações mútuas.

Diálogo, proximidade, ouvidos e coração abertos ajudam a minimizar e resolver conflitos. O texto abaixo é do psicanalista Contardo Calligaris e nos ajuda a refletir sobre o assunto:

22 DE ABRIL DE 2010

"As Melhores Coisas do Mundo"
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Os adultos ainda não desistiram de viver, e os adolescentes já estão vivendo, para valer
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DOMINGO, NUMA conversa sobre filhos e netos, um amigo, pai de dois meninos que já têm mais de 20 anos, declarou que, graças a Deus, estava saindo da tormenta. Todos entendemos o que ele quis dizer: a relação entre pais e filhos adolescentes pode ser uma tormenta -e, às vezes, um tormento.

Essa tempestade se alimenta numa espécie de mal-entendido fundamental: 1) os adolescentes menosprezam a experiência dos adultos, 2) os adultos menosprezam a experiência dos adolescentes. Explico. 1) Para os adolescentes, em regra, os adultos (a começar pelos pais) são seres resignados (e talvez um pouco covardes), que desistiram de seus sonhos. A existência dos adultos sendo uma longa renúncia, entende-se que os entusiasmos e os sentimentos dos mesmos sejam quase sempre fingidos, inautênticos: uma encenação para um "ersatz" de vida.

Será que os adolescentes inventaram essa visão cruel e, de fato, sumária da experiência dos adultos? Nada disso: os adolescentes apenas acreditam em nossas próprias palavras. Como assim? Simples: estamos sempre prontos a salientar que a "época maravilhosa" que eles estão vivendo logo chegará ao fim e aí eles deverão se render à "triste realidade" (que seria a nossa), ou seja, eles conhecerão a desistência e o fracasso que seriam próprios da idade adulta.

Resultado: os adolescentes se surpreendem ou mesmo se revoltam quando um adulto, de repente, manifesta seu desejo. Um adolescente pode achar a mãe e o pai indignamente acomodados e chatos que nem zumbis vivendo numa sinistra rotina de deveres; o mesmo adolescente tacha de inconsequente e traidor do lar a mãe ou o pai que decide se separar para correr atrás de um amor. 2) Para os adultos, em regra, o adolescente é um ser provisório, inacabado: ele é apenas a promessa de um futuro no qual, enfim, ele viverá "de verdade".

Sobretudo na classe média, essa convicção é confirmada pelo fato de que os adultos bancam a longa adolescência dos filhos, e isso demonstraria que os adolescentes, sem independência, vivem uma época de formação, durante a qual a experiência é apenas um ensaio.

Um adolescente sofre por amor? Nosso olhar condescendente não é muito diferente do que seria se uma criança de oito anos nos dissesse estar apaixonada. Não é nada sério, é coisa de adolescente. O que um adolescente deve fazer para ser levado a sério? Nos últimos anos, em escolas dos Estados Unidos e da Europa, uma triste série de jovens saíram atirando, matando e se matando: "Será que, se eu assassinar dez colegas e três professores, alguém vai me levar a sério?", "e se eu me suicidar?". Quase todos esses jovens anunciaram seu desespero e seus planos, não em diários secretos, mas em blogs e sites que qualquer um podia acessar. Pois é, ninguém levou à sério.

Talvez a gente desvalorize a experiência dos adolescentes para compensar a inveja que nos inspiram suas vidas jovens e ainda para trilhar. Seja como for, os adolescentes retribuem nosso pouco caso considerando que somos apagados e previsíveis como o mobiliário da casa de família. Contra essa cegueira, pela qual ninguém enxerga a experiência do outro, um remédio: que você seja adulto ou adolescente, assista a "As Melhores Coisas do Mundo", o filme de Laís Bodanzky que estreou na sexta-feira passada. E, se for possível vencer a eventual resistência de todos, adultos e jovens, contra qualquer programa de família, melhor ainda: assista ao longa em bando. Garanto que o filme vai dar umas conversas boas e bem-vindas entre pais e filhos.

Os jovens gostarão de constatar que seu cotidiano vale a pena ser contado: o filme é um retrato milagrosamente exato da experiência adolescente (aliás, como a adolescência, ele consegue ser bem-humorado, divertido e, ainda, absolutamente sério).

Alguns comentaristas disseram que o tema do filme é o "bullying" na época da internet. Pode ser, embora eu prefira pensar que, simplesmente, não é fácil ir para a escola, a cada dia. E não é preciso que aconteça algo de extraordinário ou extremo para que a escola seja uma selva: para isso, basta a tarefa básica (e obrigatória para todos os adolescentes) de construir, inventar e preservar uma identidade sob o olhar impiedoso dos outros.

Mas, aquém ou além disso tudo, para mim, "As Melhores Coisas do Mundo" é um filme para os adolescentes descobrirem que os adultos ainda não desistiram de viver, e os adultos descobrirem que os adolescentes já estão vivendo, para valer. (Contardo Calligaris)